Cantos “que acompanham o rito” e cantos “que são o rito”

A Instrução Geral do Missal Romano (IGMR) traça uma distinção importante, mas muito pouco aplicada, entre os cantos da missa. Nesse sentido, o número 37 da IGMR afirma que existem cantos que (a) “constituem um rito ou ato independente“, tais como o hino do Glória, o salmo responsorial, a Acalmação ao Evangelho, o Sanctus, o canto depois da Comunhão; e outros que (b) “acompanham um rito, tais como o canto da entrada, das oferendas, da fração (Agnus Dei) e da Comunhão“. Como se vê, o próprio documento exemplifica, afirmando em qual categoria se inserem os cantos do próprio e do ordinário. 

Mas o que, na prática, essa diferença significa?

(a) Os cantos que acompanham o rito devem ser interrompidos assim que o gesto que acompanham chegar ao fim. O rito é o principal, e a música é mero acessório que o acompanha. É o caso, por exemplo, do canto que acompanha o ofertório: concluída a preparação das ofertas pelo sacerdote, os músicos devem interromper o canto assim que possível. Aqui, duas posturas erradas devem ser evitadas. Uma pelos músicos, a segunda pelo próprio celebrante: (i) deixar o sacerdote esperando no altar por muito mais tempo que o necessário; e (ii) interromper o coro ou o organista abruptamente, no meio da execução, sem dar-lhes oportunidade para conclui-la. O critério para solucionar essa questão, contudo, seguem a razoabilidade: tanto os músicos devem manter-se atentos ao altar quanto os sacerdotes, a seu turno, devem esperar que os músicos cheguem a um ponto em que possam concluir sua execução sem maiores prejuízos.

(b) Os cantos que são o rito, por outro lado, não são somente o acompanhamento de um gesto que se desenvolve no altar. Pelo contrário: em vez de ser acessório, aqui é o canto que – dando suporte ao texto liturgico que veicula – ocupa a posição principal. Por isso, como tais cantos são o próprio rito, a celebração só prossegue quando os músicos terminarem sua execução. É o caso do Glória, do Sanctus e do Salmo Responsorial, por exemplo. Em todos esses casos a música é parte integrante de um momento da missa. Tanto que, se essas partes não puderem ser cantadas, seu texto deve ser dito pelo celebrante ou pelos fiéis, mesmo sem música.  

Essa distinção traz algumas consequências:

Primeiro, que há certa coincidência entre os cantos que compõem o Ordinário e os cantos que são o rito. Essa aproximação também é verdadeira para os cantos do Próprio que também, na maioria das vezes, são cantos que acompanham o rito. Afinal, os cantos que compõem o ordinário (Kyrie, Gloria, Sanctus e Agnus Dei) não podem ser omitidos, seu texto não pode ser alterado e, na escolha do que se canta e do que não se canta, deve-se sempre dar precedência à execução das partes fixas da missa. Contudo, deve-se levar em conta que esta é somente uma aproximação entre duas classificações diferentes, que encontra exceções. Por exemplo, o Agnus Dei foge à regra, e é tratado pela IGMR como “canto que acompanha o rito” mesmo integrando o Ordinário. Mesmo assim, a brevidade das aclamações neste canto – especialmente no repertório gregoriano – torna essa distinção livre de problemas, pemitindo enquadrá-lo, na prática, nessa mesma regra geral. O Salmo responsorial é outra exceção já que, mesmo integrando o Próprio, classifica-se também como “canto que é o rito”.

A segunda consequência é que os cantos que acompanham o rito podem ser omitidos sem maiores dificuldades, sendo menos importantes que os cantos que são o próprio rito. A distiñção não traz maiores dificuldades. Afinal, o que importa na liturgia é que o gesto principal – e não seus acessórios – sejam realizados corretamente: seja pelo sacerdote, seja pelos músicos, nas partes que lhes competem.

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