“Música Litúrgica – o Salmo Responsorial”

Publico abaixo excelente texto publicado no site “Salvem a Liturgia!” (http://www.salvemaliturgia.com) de autoria de Alfredo Votta, sobre o salmo responsorial. Vem a calhar para o nosso curso de formação de salmistas, que hoje se inicia.

Para acessá-lo na fonte, visite o seguinte endereço: http://www.salvemaliturgia.com/2010/02/musica-liturgica-o-salmo-responsorial.html

Eis o texto, na íntegra:

“Dando seqüência às nossas sessões de compreensão do Próprio da Santa Missa, chegamos agora ao seu segundo item: o Salmo Responsorial. Se o primeiro item que vimos, o Introito, é desconhecido de muitos, o mesmo não pode ser dito do Salmo Responsorial que, bem ou mal, parece ser feito na maioria das igrejas.

O adjetivo responsorial deriva da palavra responsório, por sua vez ligada à palavra resposta. Esta “resposta”, entretanto, não é resposta à leitura bíblica que precede o Salmo Responsorial, e sim o refrão. A maioria dos fiéis sabe que o Salmo Responsorial possui um refrão que, geralmente, é cantado ou recitado pela assembleia.

Os salmos, em seu texto original, não trazem refrão; porém, na Liturgia um refrão é introduzido, selecionado entre os versículos do próprio salmo. Serve para sublinhar, por assim dizer, o caráter e o espírito daquele salmo específico.

Nos Domingos e solenidades sabemos que, além do Evangelho, são feitas duas leituras. O Salmo Responsorial, nestes casos, posiciona-se entre elas. Nos outros dias litúrgicos, além do Evangelho é feita somente uma leitura; quando é assim, o Salmo Responsorial posiciona-se depois dessa leitura única.

Assim, estamos habituados, nas Missas dominicais, a ter o Salmo Responsorial intercalado; quando ele termina, ainda temos a segunda leitura antes de ficarmos em pé para o Evangelho. Nos dias de semana, porém, terminado o Salmo Responsorial, já nos levantamos para o Evangelho – ou melhor: para o terceiro item do Próprio, comumente chamada “aclamação ao Evangelho”.

No Brasil os textos usados para o Salmo Responsorial, impressos no Lecionário, são metrificados. É muito importante que o caro leitor compreenda o que significa isto. A quantidade de sílabas é medida, assim como os seus acentos. Isto não acontece num texto como, digamos, as Cartas de São Paulo, ou uma notícia de jornal, ou este artigo. Estas quantidades medidas são características da poesia. Em sua infância o leitor certamente aprendeu estes versos:

Batatinha quando nasce / se esparrama pelo chão

Mesmo que tenha sido na versão espalha a rama pelo chão. Intuitivamente, o leitor aprendeu que esses versos não podem ser proferidos de qualquer jeito. É necessário fazer a correta acentuação; não só a correta acentuação de cada palavra, mas a correta acentuação de um verso inteiro. Portanto, posso apostar em que o leitor pronuncia com ênfase as sílabas que coloco em destaque:

Batatinha quando nasce / se esparrama pelo chão

Qualquer outra acentuação fica antinatural. Os acentos e as quantidades são um aspecto musical da poesia – pois bem; falei do acento, mas ainda não da quantidade. Então repare o leitor que os acentos caem precisamente na terceira e na sétima sílabas de cada verso.

Ba-ta-ti-nha quan-do nas-ce / s’es-par-ra-ma pe-lo chão

Veja que no início do segundo verso juntei duas sílabas (“se es-…”) em uma (“s’es”), que é como pronunciamos.

Lembrando também que as sílabas poéticas devem ser contadas somente até a última sílaba tônica, temos ali versos de sete sílabas.

Mas que tem isso a ver com o Salmo Responsorial? Tudo, pois usamos uma versão metrificada do Saltério (o livro dos Salmos), impressa, a propósito, com o nome de Saltério Litúrgico, pelas Edições Lumen Christi. É a tradução oficial da CNBB. Ainda que o Salmo Responsorial seja só recitado, na Missa (e não cantado), este conhecimento é importante para proferi-lo com beleza.

Para mostrar um exemplo ao leitor, tomo o Salmo 1. Seu primeiro versículo é assim traduzido pela Bíblia Ave Maria:

Feliz o homem que não procede conforme o conselho dos ímpios, não trilha o caminho dos pecadores, nem se assenta entre os escarnecedores.

Não é um texto metrificado. Nem precisa ser, isto é importante lembrar. Na Liturgia, a princípio, também não existe esta obrigatoriedade. Entretanto, em alguns países existe este hábito de metrificar os salmos, e este hábito não é novo. É uma escolha tão legítima quanto não metrificar.

O Saltério Litúrgico, cujas traduções metrificadas são as utilizadas pelo Lecionário, traduz assim o primeiro versículo do Salmo 1:

Feliz é todo aquele que não anda
Conforme os conselhos dos perversos
Que não entra no caminho dos malvados
Nem junto aos zombadores vai sentar-se.

Quando o Salmo 1 é o Salmo Responsorial da Missa, é isto mesmo que vemos. Cada verso tem dez sílabas poéticas, com acentos na segunda, na sexta e na décima sílabas (o terceiro verso tem onze sílabas, basta considerá-lo como verso de dez sílabas com uma sílaba extra no início).

O mesmo que transcrevi acima escrevo de novo, marcando as sílabas fortes, acentuadas, de cada verso.

Feliz é todo aquele que não anda
Conforme os conselhos dos perversos
Que não entra no caminho dos malvados
Nem junto aos zombadores vai sentar-se.

Os livros litúrgicos costumam imprimir os Salmos com as sílabas fortes de cada verso em negrito. No meu exemplo também sublinhei, para chamar mais atenção.

É comum que me perguntem por que nos livros da Liturgia das Horas existem essas sílabas impressas em negrito. É justamente por isso. Posicionar corretamente os acentos na recitação do salmo é fundamental para uma realização bela da Liturgia.

Outra pergunta comum a respeito destes salmos metrificados faz menção a alguns símbolos que costumam ser usados nelas. Um deles é o asterisco, que aparece no fim de alguns versos.

Feliz é todo aquele que não anda *
Conforme os conselhos dos perversos
Que não entra no caminho dos malvados *
Nem junto aos zombadores vai sentar-se.

Neste tipo de tradução os versos dos salmos são agrupados de dois em dois e, às vezes, de três em três. O asterisco indica o final do primeiro verso de um grupo de dois versos; no exemplo acima, são dois grupos de dois versos.

Quando aparece um grupo de três versos, o asterisco indica o final do segundo, e uma cruz indica o final do primeiro. No Salmo 58, os versículos 3 e 4 são traduzidos como uma estrofe de cinco versos: um grupo de dois e um grupo de três:

Eis que ficam espreitando a minha vida, *
Poderosos armam tramas contra mim.
Mas eu, Senhor, não cometi pecado ou crime;
Eles investem contra mim sem eu ter culpa: *
Despertai e vindo logo ao meu encontro!

Esses símbolos ajudam o salmista a cantar o salmo segundo as fórmulas gregorianas. Ao ver o asterisco, ele sabe que cantará a terminação de um grupo de dois versos; ao ver a cruz, ele sabe que cantará a terminação do primeiro verso de um grupo de três versos.

As “fórmulas gregorianas” a que me refiro são também chamadas de tons salmódicos; são “clichês” melódicos (sem conotação negativa da palavra “clichê”) utilizados, por exemplo, para cantar versos adicionais do Introito e de outras partes do Próprio da Missa. Na Liturgia das Horas, pode-se usar uma dessas fórmulas para todo um salmo; elas são também apropriadas para o Salmo Responsorial da Missa, tanto para o refrão como para os versos. Não são, entretanto, a única possibilidade.

Pode-se perfeitamente compor música para o Salmo Responsorial. O mais comum é que se utilize uma melodia para o refrão e, para os versos, algum tipo de fórmula gregoriana ou parecida com as fórmulas gregorianas. Em alguns lugares existe a prática de a assembleia cantar o refrão e o salmista ler os versos. Pessoalmente, não gosto, mas a IGMR parece aprovar: (…)De preferência, o salmo responsorial será cantado, ao menos no que se refere ao refrão do povo. (…) (IGMR, 61). De qualquer modo, a IGMR fala em “preferência”, o que indica um ideal, mas não uma obrigação.

Fica claro, pela instrução do Missal, que o refrão cabe à assembleia. Ao mesmo tempo, a natureza do Salmo Responsorial permite concluir que a música composta para esse mesmo refrão deve ser relativamente simples. Com “relativamente” tento dizer que precisa ser compreensível para os fiéis, de modo que possam repeti-lo imediatamente. É costume que o Salmo Responsorial comece com o refrão cantado pelo cantor sozinho, após o que os fiéis o repetem. Parece-me ideal que este refrão não precise ser “ensaiado” antes da Missa, mas devo enfatizar que isto se trata de uma opinião pessoal. Uma assembleia que tenha noções de escrita musical pode aprender um refrão menos óbvio com mais rapidez, situação que acontece em alguns países. Porém, mesmo sem este conhecimento, há inúmeras fórmulas e melodias simples que dispensam ensaios com os fiéis.

Com base em situações que já presenciei, eu gostaria também de dizer que me parece ideal que o salmista, ao proceder ao canto ou à leitura do Salmo Responsorial, limite-se a este encargo. São péssimas quaisquer outras falas como “vamos cantar o Salmo”, ou “nossa resposta ao salmo é…”, ou “todos deverão repetir…” etc.

No mais, convém observar o nº102 da IGMR: Compete ao salmista proclamar o salmo ou outro cântico bíblico colocado entre as leituras. Para bem exercer a sua função é necessário que o salmista saiba salmodiar e tenha boa pronúncia e dicção. “Saber salmodiar” inclui conhecer (mesmo que intuitivamente, em certos casos) as questões métricas de que falei anteriormente e, no caso do canto, conhecer as fórmulas gregorianas e, sendo possível outras fórmulas e melodias.

Por que o nº102 da IGMR fala em “salmo ou outro cântico bíblico”? Em alguns casos, o Salmo Responsorial toma seu texto não dos salmos, mas de algum cântico como o Magnificat (do Evangelho segundo São Lucas), de um dos vários cânticos do Livro do Profeta Isaías etc. E aqui falo da Missa: na Liturgia das Horas são usados muitos cânticos bíblicos que não são salmos, e sua tradução também aparece no Saltério Litúrgico, sendo em número de setenta e cinco!

Vários compositores de música litúrgica se têm debruçado sobre a tarefa de compor refrãos de Salmo Responsorial. Mostro aqui vídeos de dois exemplos. O primeiro é do padre francês Joseph Gelineau (1920-2008), cujo trabalho foi adaptado em outras línguas. Aqui vemos seu uso numa igreja da Carolina do Sul; trata-se do tão conhecido Salmo 22 (ou 23).

No vídeo seguinte, o mesmo salmo, desta vez com refrão de Jeff Ostrowski (nascido em 1981). Jeff conduz o projeto Chabanel Psalms, para o qual compôs e reuniu refrãos de Salmo Responsorial para todos os Domingos e festas do ano litúrgico. Num momento oportuno falarei deste importantíssimo projeto de música litúrgica, com o qual tenho contribuído com algumas peças; por outro lado, também tenho adaptado algumas composições de Jeff para o português. O vídeo é demonstrativo, e não foi feito durante a Missa.

Estou certo de que há no Brasil igrejas em que o Salmo Responsorial é bem realizado, mas não tenho encontrado vídeos. Minha ideia era a de encontrar também vídeos de Salmos Responsoriais em outros idiomas (que não português nem inglês) para trazer variedade, mas também não os tenho encontrado.

No lugar do Salmo Responsorial pode ser usado o Gradual. Falarei dele na próxima vez”

 

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